“Quando vi aquilo fiquei encantada
e falei é isso que eu quero fazer”.
Muitos
jovens usam a internet como ferramenta para escolher uma profissão, mas para a
terapeuta ocupacional e psicanalista, Dra. Wanira Scilla foi bem diferente.
Certo dia perguntou a uma vizinha, que via sempre indo para o Hospital das
Clinicas (HC), em São Paulo, o que ela fazia. E a resposta a deixou mais
curiosa, quando a ouviudizer que era terapeuta ocupacional queria saber o que
fazia aquele profissional. Após ser apresentada a terapia ocupacional já sabia
“é isso que eu quero fazer”.
Os
primeiros anos de faculdade, na Universidade de São Paulo (USP), foram
maravilhosos. No segundo ano veio seu primeiro estágio, no HC. Foi nesta época
que a Dra. Wanira pode perceber que nada acontece por acaso. Quando ainda criança,
seu pai sofreu um acidente, em que cai e bateu a medula. Tal trauma foi
responsável por que desenvolvesse um câncer e o deixou paraplégico, uma
complicação, mais tarde, o levou a morte. “Minha mãe me contava que eu sentava,
pequenininha, e brincava na cadeira de rodas”, lembra a terapeuta ocupacional.
Para ela, seu pai, inconscientemente, é o grande responsável por sua escolha, “eu
acho que a escolha [da profissão] está voltada a algum aspecto de vivencia, sob
a visão psicanalítica. É algo que você quer resgatar”, afirma.
Diz
um velho ditado que o primeiro amor a gente nunca esquece, na terapia
ocupacional podemos dizer que o primeiro paciente a gente nunca esquece. E a
Dra. Wanira lembra muito do seu, um médico que havia sido baleada e estava em
profunda depressão, “quando abri a porta ele puxou o lençol e cobriu a cabeça”,
conta. Não tinha experiência, nem mesmo sabia como agir, mas após colocá-lo nos
aparelhos e conseguir deixá-lo em pé, o paciente tirou uma bala do bolso e a
deu, neste momento “as lágrimas escorriam”.
Ainda
na época da faculdade, Dra. Wanira começou a trabalhar com crianças
deficientes, o que despertou nela um sentimento, a necessidade de integrar o
deficiente na sociedade. Depois de formada, Dra. Wanira Scilla montou uma
clínica, a Clínica Puire Habilitação e Reabilitação, que acolhia crianças a
partir dos três meses de vida e tinha como objetivo habilitar e reabilitar a
pessoa com deficiência.
A
clínica oferecia ao deficiente tratamento multidisciplinar, com atendimento de terapeutas
ocupacionais, fisioterapeutas, fonoaudiólogas e psicólogos. Classes especiais
foram montadas para preparar essas crianças para a inclusão na escola comum e
torná-las independentes, além de orientar os pais.
Segundo
a terapeuta ocupacional a criança com múltipla deficiência congênita ou
adquirida deixa a família muito fragilizada, por isso é fundamental o trabalho
de inclusão feito com os pais. Ela defende que o fato de não saber líder com a
deficiência faz a família superproteger ou rejeitar, duas possibilidades que podem
levar a criança a um atraso no desenvolvimento. “Se eu trato aquela criança com
muita superproteção, eu não deixo a criança se desenvolver na potencialidade
que ela tem e se eu trato aquela criança com a rejeição ela vai ficar
rebaixada”, diz a Dra. Wanira.
No
entanto, após anos de dedicação a inclusão social de crianças com deficiência,
proporcionando às pessoas com deficiência uma vida mais digna, de qualidade e
mais independência, a clínica foi fechada.
Após
o fechamento da clínica, Dra. Wanira continuou trabalhando com crianças, mas
desta vez em uma UTI infantil, o que segundo ela é algo muito difícil. “Nessa
profissão você não pode perder a emoção, você tem que estar presente com o
racional e com o emocional. Só que você não pode carregar isso pra tua vida”,
explica.
Na
UTI, a Dra. Scilla se recorda de ter visto muitas coisas duras, médicos que
simplesmente ignoravam os sentimentos de mães e destruíam o sonho de mulheres
que só queriam sair daquele lugar com seus filhos nos braços.
Em
especial, Dra. Wanira Scillase recorda com carinho de um paciente: o Rafael.
Segundo a terapeuta ocupacional, uma médica repetia diversas vezes a mãe que
seu filho iria morrer. Sensibilizada com o desespero da mãe daquele bebê, que
era um recém-nascido, a TO resolveu consolá-la e aproveitou para dar-lhe um
conselho: “mãe, se ele vai morrer ou não, nós não sabemos. Na realidade o
estado dele é muito grave, mas é o teu primeiro filho, então você tem que viver
a maternidade por inteiro”.
Na
ocasião, Dra Wanira, que mãe de duas filhas, precisou se ausentar porque uma
delas havia ficado doente. Quando retornou ao trabalho descobriu que o pequeno
Rafael já não estava mais ali, tinha recebido alta e voltado para casa. Dois
anos depois, uma surpresa: adentra ao hospital uma mãe com uma criança no colo,
que questionou a doutora se ela reconhecia aquela criança em seus braços. Era o
Rafael, que se tornou uma criança forte e saudável.
Momentos
como este fazem com a Dra. Wanira Scilla classifique a terapia ocupacional como
algo “muito gratificante e muito feliz”. Segundo ela a profissão lhe
proporcionou crescer na vida como ser humano.“Para mim foi uma vida muito rica.
Eu acho que eu vivi a terapia ocupacional como uma coisa emocional muito forte,
além da técnica”, conclui.
Matéria publicada nas revistas Fisioterapia em Revista e Terapia Ocupacional em Revista
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