Iniciativas de inclusão social fazem com que a cidadania se amplie e permitem que as pessoas se conscientizem de que incluir significa tratar com igualdade
Eles
são campeões olímpicos, são bailarinos, cantores, trabalham, dirigem o seu
próprio carro, tem filhos e levam uma vida comum. Mas nem sempre foi assim. Já
houve época em que o deficiente vivia isolado da sociedade e ainda não havia se
pensado em inclusão social no País.
A
terapeuta ocupacional e psicanalista Dra. Wanira Scilla, que trabalhou com um
paciente com deficiência visual quando ainda estava na faculdade, sentiu a
necessidade de adaptá-lo ao jardim de infância. “Eu fiz uma visita a uma
escola, na época um EMEI, da prefeitura, e comecei a fazer a adaptação dessa
criança”, diz Scilla. Para ela, aquela era uma criança normal do ponto de vista
de inteligência, só tinha uma deficiência visual, e precisava conviver com
outras crianças.
Ela
também se lembra do quanto foi difícil esse processo “a professora olhou para a
criança e falou: não, eu não vou poder ficar com essa criança porque ela é cega
e eu não sei o que fazer com ela”. Mas isso não fez com que a profissional
desistisse, “isso despertou em mim esse interesse pela inclusão”, afirma Dra. Wanira.
Em
1892, a Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com a Organização das
Nações Unidas (ONU) estabeleceram o Programa Mundial para as Pessoas com
Deficiência, no qual três princípios básicos foram apresentados e defendidos em
diversas partes do mundo. São eles: prevenção, reabilitação e equiparação de
oportunidade.
Hoje,
cerca de 24 milhões de brasileiros são deficientes. Só em São Paulo, 12% dos
mais de 11 milhões de habitantes da cidade têm algum tipo de deficiência,
segundo dados do Censo 2010. É verdade que ainda há muito a se fazer para
proporcionar a plena acessibilidade e inclusão social das pessoas com
deficiência e mobilidade reduzida, mas a capital paulista se tornou referência
no que se refere a políticas públicas voltadas a essa parcela da população.
Mas
isso só é possível porque existem pessoas como Sandra dos Santos Reis,
presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência (CMPD). Mãe de uma
criança que nasceu com luxação congênita de quadril, o que não a permite ter
equilíbrio, Sandra se empenha na luta pelos direitos dos deficientes desde o
nascimento do filho, em 1979. Ela conta que, naquela época, os deficientes não
tinham o respeito da sociedade e muitas vezes nem mesmo da própria família.
“Conheci um casal português que escondeu o filho deficiente por mais de 20
anos. Ninguém da família, que morava em Portugal, sabia que eles tinham uma
criança deficiente”, lembra.
Sempre
engajada na luta por direitos para a pessoa com deficiência, após seu filho se
casar, Sandra passou a trabalhar com crianças deficientes como voluntária no
programa de Reabilitação Baseada na Comunidade (RBC), da Universidade de São
Paulo (USP). O que ela não sabia é que tinha propensão a desenvolver uma doença
que a faria também adquirir uma deficiência. Diagnosticada com espondilite anquilosante,
uma doença genética degenerativa que causa inflamação dos tecidos conectivos, com
cada vez mais dificuldades para caminhar, Sandra passou a andar de cadeira de
rodas.
Mas
isso não a desanimou e ela resolveu integrar o Conselho da Pessoa com
Deficiência, órgão que compõe a estrutura da Secretaria Municipal da Pessoa com
Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED), que visa garantir que as pessoas com
deficiência tenham direito a uma vida digna, com qualidade, igualdade e efetiva
inclusão cultural, educacional, social e política, do qual hoje é presidente.
Para Sandra “o mais importante é saber que essa geração terá uma vida melhor do
que a que tínhamos há 20 anos”.
Ela
ressalta a importância de todas as conquistas do CMPD: antes não existia nenhum
tipo de serviço referencial, todos os tipos de deficiência eram tratados como
caso de ortopedia. “Se em 1979 eu tivesse pelo menos um terço do que existe
hoje para atendimento seria muito bom”, afirma.
O
presidente da Associação em Defesa dos Direitos de Pessoas Deficientes e de
Mobilidade Reduzida, Galdino Oliveira Teixeira, que adquiriu uma deficiência
após sofrer um acidente em que foi lançado por um ônibus, afirma que é possível
superar a deficiência. Para ele o indivíduo adquire uma lesão, fica com sequelas,
“mas a deficiência está na mente”.
Galdino
diz que a falta de respeito da sociedade se deve ao fato de que as pessoas não
estão preparadas por não ter acontecido com ele ou na família. “Ele não sabe o
que é ter uma deficiência, por isso são importantes as feiras de inclusão”,
diz.
Dra. Wanira
Scilla ressalta a importância do acompanhamento multidisciplinar e
acompanhamento à família “a criança com deficiência ao nascer ou ao adquirir a
deficiência deixa a família muito fragilizada. E cada área é responsável pelo
desenvolvimento da criança naquele setor”, diz.
Adilson
Matos dos Santos, condutor de transporte escolar, é o pai de Maria Vitória dos
Santos, 9 anos. Vitória tem paralisia cerebral. Ela nasceu quando a mãe ainda
estava no quinto mês de gestação e desde os seis meses de idade já começou a
fazer tratamento de terapia ocupacional. Os pais não excluem Vitória de nada,
mas dizem que a grande dificuldade é conseguir estacionar. “Muitas vezes as
pessoas não respeitam as vagas, mas procuro sempre fazer valer os direitos dela”,
diz Adilson.
Silvana
Costa Feltran, pedagoga, é mãe de Marco Antonio Feltran Junior, 18 anos. Ele
adquiriu hemiparesia
após um acidente de carro, quando tinha 10 anos. Para Silvana o processo de
adaptação e entendimento do que estava acontecendo foi muito doloroso para a
família. “Não vejo a aceitação como algo difícil para nossa família, mas
entender sim era complicado. Como seria a reabilitação, por exemplo, era algo
complexo. Tínhamos a nossa rotina diária, e ela foi toda modificada em virtude
do que aconteceu”, desabafa.
Junior
faz
tratamentos de terapia ocupacional, fisioterapia, hidroterapia, arteterapia, musicoterapia,
fonoaudiologia e também fez, por cerca de um ano, o tratamento de equoterapia. “Tudo
foi crucial para o desenvolvimento de meu filho. Se ele anda hoje, sei que foi
em função desse tratamento”, afirma Silvana.
A
pedagoga diz que andar nas ruas de São Paulo é uma das tarefas mais difíceis.
Para ela, as calçadas em desnível era uma verdadeira maratona todas as vezes
que precisava sair com ele na cadeira de rodas. “Hoje apesar de ele não
precisar mais de cadeiras de rodas, qualquer coisa o desequilibra”.
Quando o
assunto é acessibilidade na escola, Silvana diz que não poderia ter sido
melhor. Ao saber do acidente, a escola já começou a se organizar para recebê-lo.
A mãe optou por mantê-lo na escola regular porque sempre acreditou na inclusão,
sem contar que “estar entre seus velhos amigos foi bom para avivar a memória e
para a sua reabilitação”, diz.




