quinta-feira, 5 de julho de 2012

Nada nos deram, tudo conquistamos


Cleuza Ramos há mais de 20 anos dedica sua via a realizar sonhos dos outros

“Não acredito em coincidência. Quando duas peças se encontram é porque elas fazem parte de um mesmo quebra-cabeça.” Essa frase dita por Antônio Fagundes em uma cena do filme A dama do cine Shangai, em 1987 e que também está no livro Da dignidade à oportunidade, de Goimar Dantas, ilustra bem a história de Cleuza Ramos. 
Líder comunitária, ela vem dedicando sua vida à realização dos sonhos dos outros. Cleuza compôs e participou de diversos grupos religiosos na Igreja Católica e foi nesta época, quando esses grupos começaram a discutir temas como a Teologia da Libertação, e as mudanças políticas que vinham ocorrendo no Brasil que ela passou a integrar o PT, Partido dos Trabalhadores.
Tantas informações que recebia, a levaram a um conflito, pois o discurso utilizado pela igreja tornava-se cada vez mais distante da vida que levava. “Eu estava muito infeliz porque falava de liberdade, mas ao mesmo tempo não me sentia livre”, disse ao lembrar do seu primeiro casamento.
Foi na mesma igreja que conheceu o hoje advogado e deputado estadual reeleito, Marcos Zerbini. Juntos, desde a década de 80, eles vêm tocando a ATST, Associação dos Moradores Sem Terra de São Paulo, movimento que nasceu como todos os outros “sempre demandando a Secretaria de Habitação do Estado de São Paulo, dos órgãos similares da Prefeitura da Capital, fazendo caravanas à Brasília, participando de passeatas e manifestações”, conta ela.
Cansados de promessas os participantes dos grupos decidiram ir mais longe. “Começamos a pensar em alternativas e discutir a possibilidade de comprar terrenos coletivos. Um ajudando o outro e o grupo todo se ajudando, conseguimos construir um bairro. Independente de governos”, conta ela. Hoje a associação ajuda a mais de 20 mil famílias. O objetivo é o de sempre: viabilizar moradias de qualidade para aos menos favorecidos. “Para isso nós procuramos reunir grandes grupos aos quais passamos toda a espécie de orientação, inclusive jurídica. Essas famílias contribuem com cotas e adquirem lotes de terra onde futuramente construirão suas casas”, explica Cleuza.
Não satisfeita, em 2004 ela ainda participou da criação da Associação Educar para Vida. “A princípio nosso foco era apenas os filhos dos moradores das nossas comunidades. Hoje a Associação já atende a mais de 50 mil estudantes de todos os cantos da Grande São Paulo. Eu me lembro que olhava para aqueles meninos e dizia: meu Deus, aos 18 anos esses meninos vão terminar o colegial e virar concreto?”
Descrita por todos como uma mulher forte e guerreira, Cleuza, confessa que muitas vezes pensou em desistir. “Sentei no banquinho de réu da Justiça quatro vezes. Fui absolvida em todas”, lembra ao falar dos problemas jurídicos que foi obrigada a enfrentar no grupo de moradia. Emocionada explica que não larga nada porque, “quando olho para traz, vejo que não posso viver sem isso.” E vai mais longe revelando que quando chega em cada reunião das quais participa se questiona: “Senhor, como posso viver sem isso?”
Em meio a lágrimas, Cleuza tenta explicar o que sente em relação à associação: “a gente pode viver sem comer? Se não comer você morre, para mim é a mesma coisa. Se eu ficar sem isso tudo, essa minha vida eu morro, não teria motivos para viver”, desabafa.
“Deus sabe o que cada pessoa tem em seu coração. Elas têm seus desejos e eu não tenho o direito de fazer um projeto para a vida delas. É por isso que a nossa associação ainda sobrevive e as outras que nasceram com ela, já morreram todas”, diz, e conclui: “A gente responde a uma realidade, que nos é colocada de um jeito diferente a cada dia. Olhamos para as pessoas, não para o projeto.”

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